Na mão direita aberta cinco moedas. Insuficiente para o refrigerante. Sem problemas: comeria somente o cachorro-quente. A manhã pesada da aula lhe deu muita fome. Ainda teria toda a tarde pela frente. Sabia que estudar era o caminho, sua mãe sempre lhe dizia.
Do outro lado da cidade, a mãe recolhida na copa, terminava de esquentar a sua marmita. Lembrou-se por um instante do filho na faculdade que talvez não tivesse dinheiro para comer. Deu a primeira colherada. Em sua cabeça, o filho com fome. Mastigava com dificuldade. O filho do outro lado da cidade com fome.
A comida começou a inchar em sua boca, não descia pela garganta. Sentiu dor e tristeza profunda, cuspiu e pôs-se a chorar orando pelo filho.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
"A solidão de ser só dois"

Os corpos nus espalhados na cama.
Não tinham sequer recobrado as forças após o intenso gozo que ainda enchia seus corpos de uma avalanche de choques e espasmos.
De repente, ele se virou de lado, alcançou os cigarros e o isqueiro em cima de um criado mudo e acendeu.
A fumaça criou uma espécie de cortina entre os dois, quando ele começou a falar:
“Já pensou que loucura: se eu morresse agora eu nunca mais sentiria prazer. Não é mesmo louco!?”
A cortina se adensou. A fumaça branca agora mais espessa parecia paralisada no ar entre os dois.
“Se você morresse agora, disse ela, eu nunca mais sentiria prazer.”
A frase saiu desconcertada, entre titubeante e emocionada por ter proferido o que poderia ser interpretado como uma declaração de amor. E talvez o fosse. Era.
Nunca antes fora capaz de dizer isso a ninguém, tanto por incerteza quanto pela falta de oportunidades. Colecionou quatro ou cinco romances malfadados cujas declarações nem...
Disse e desviou o olhar. Queria parecer indiferente, distante, soou envergonhado, tímido, real.
Ele se levantou calmamente, pôs no aparelho um disco de Noel:
“Você precisa pensar um pouco mais em si mesma”.
“Eu não te entendo.”
“Talvez nunca entenda mesmo, mas que importa? você precisa é se entender!”
Disse isso enquanto se vestia.
Nessa hora, ela se virou de lado, cobriu-se com o lençol amarrotado e pela primeira vez envergonhou-se de estar nua.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
"todos os meus amigos têm sido campeões em tudo..."

Tenho verdadeiro horror a vestibular e tudo o que se criou em torno dele. Odeio os discursos de supremacia, o elogio à competição; odeio o ódio cultivado entre os concorrentes que chegam a desejar a morte uns dos outros na esperança de sobrar uma vaga...
O vestibular, como se tem posto, enquadra as aulas, que, diga-se, há muito não são espaços de criação e diálogo. Somos obrigados a adivinhar como a questão cairá na prova, quais as opções corretas, como operar a prova como uma máquina, e acabamos todos por nos tornar máquinas de conteúdos enciclopédicos.
É evidente que em muitos processos seletivos já se pode notar avanços colossais, que priorizam a aplicabilidade dos conhecimentos m detrimento do “decoreba” tradicional. O que me entristece é deparar com quarenta alunos que só enxergam o Dom Casmurro como uma ponte para a Universidade.
Outra questão digna de horror é a síndrome dos concursos públicos...
Morando em Brasília parece natural que vivamos sob a batuta dos processos seletivos. Uma legião de “concurseiros”, armados de apostilas e legislações, vagam pela cidade com cifras nos olhos em busca de editais. Não critico o sonho de um bom emprego, de estabilidade financeira, de praia nas férias e dinheiro para o cinema; critico a fúria cega que os assola na busca de uma conta bancária recheada e não d uma profissão. Aliás, profissão, vocação, talento parecem meio fora de moda na contemporaneidade. As palavras de ordem são outras, mais economicamente viáveis. Há um notável apagamento da idéia de “serviço público”, em seu sentido último – o de servir, de “dar sua contribuição para o nosso belo quadro social”. Em lugar de serviço, carreira.
“Os concurseiros”, uma espécie ainda carente de estudo atencioso, não escolhem as provas por afinidade, visando de que forma melhor podem “servir o público”, mas pautados pela remuneração. É claro que também são vítimas de uma sociedade que ensina desde cedo que não se ganha o segundo lugar...
Sei que cinco mil reais conseguem minimizar a depressão diante de uma sala cinza com persiana torta, parede mofada, telefone mudo, copo d’água, carimbos e papéis; não sei, porém por quanto tempo.
“E eu que tenho sido vil, literalmente vil” sonho utopicamente com o dia em que as provas serão abolidas e a competição desenfreada será apenas lembrança de outrora. “Estou farto de semideuses”.
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